Internacional Noticias

Vitória de Chloé Zhao no Oscar 2021 é censurada na China

Escrito por Bruno

A vitória da cineasta chinesa Chloé Zhao no Oscar 2021 está sendo ignorada na China. Nascida em Pequim, ela venceu o Oscar de Melhor Direção e também o de Melhor Filme por “Nomadland”, mas nenhuma repercussão ao seu triunfo pode ser encontrada nesta segunda-feira (26/4) nas redes sociais chinesas.

Zhao se tornou a primeira asiática e segunda mulher a vencer o Oscar na categoria de melhor direção, além da primeira cidadã chinesa premiada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos EUA.

A ausência de comemorações é deliberada. O Oscar deste ano não foi transmitido em nenhum lugar da China – inclusive em duas grandes plataformas de streaming, onde a cerimônia havia sido exibida ao vivo em anos anteriores. Até em Hong Kong, onde supostamente há mais liberdade, uma emissora importante optou por não exibir o Oscar pela primeira vez em mais de meio século.

O motivo não foi apenas a previsão de consagração de Zhao. O Oscar deste ano também irritou chineses nacionalistas por conta de “Do Not Split”, um filme de 35 minutos que narra os protestos pró-democracia de Hong Kong em 2019, que concorria ao prêmio de Melhor Documentário em Curta-metragem (acabou não ganhando).

Mas existe sim uma reação contrária à cineasta, iniciada logo após sua vitória no Globo de Ouro, no começo de março. Na ocasião, ela chegou a ser comemorada nas redes sociais chinesas e até recebeu homenagem da mídia estatal oficial como um motivo de orgulho para a China. Além disso, o lançamento de seu filme, “Nomadland”, foi aprovado para exibição nos cinemas locais em 23 de abril, véspera do Oscar, quando deveria ser recebido com grande fanfarra.

Entretanto, a consagração levou muitos a questionarem se ela era realmente chinesa e por qual motivo ela morava nos EUA. Blogueiros logo encontraram uma entrevista da cineasta à Filmmaker Magazine em 2013, onde ela descreveu sua criação na China como “um lugar onde há mentiras por toda parte”.

A revista já tinha deletado essa entrevista de seu site em meados de fevereiro, dias antes do anúncio da data de lançamento de “Nomadland” na China, sem maiores explicações. Mas os equivalentes a bolsominions chineses encontraram os rastros da declaração e não perdoaram a diretora, protestando contra ela.

Quatro dias após Chloé Zhao vencer o Globo de Ouro já não era mais possível encontrar menções a seu nome e à “Nomadland” na internet chinesa.

A reação nacionalista levou a um apagamento da diretora e de seu filme nas redes sociais e uma completa censura à suas conquistas posteriores.

Para completar, uma pesquisa no Weibo (o Twitter chinês) pela hashtag “#Nomadland” traz como resultado a indicação de que o tópico viola as “leis, regulamentos e políticas” da China.

Além disso, os pôsteres promocionais do filme desapareceram do Douban (um Facebook cultural), assim como a data de lançamento do filme, que não vai mais ser exibido no país.

A rápida rejeição de Zhao demonstra como o sentimento nacionalista encontra-se difundido na China, um país em que as pessoas acreditam em tudo o que diz seu presidente, Xi Jinping, porque o contraditório é proibido. Zhao não fala criticamente da China desde que alcançou a fama, mas um único comentário feito há oito anos foi suficiente para destruir sua imagem e interromper o lançamento de seu filme em sua terra natal.

O Partido Comunista da China também teria vetado a comemoração de Zhao por conta de sua educação ocidental e privilegiada. A cineasta frequentou escolas na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, antes de finalmente se matricular na escola de cinema da Universidade de Nova York, experiência fora do alcance da maioria dos chineses, que a descredenciaria, no manual populista, a ser apresentada como uma história de sucesso chinesa.

Sobre o autor

Bruno

Deixe um comentário