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Prestes a completar 18 anos, adolescentes acolhidos em instituição de BH sonham com adoção

Escrito por webmaster

Prefeitura de Belo Horizonte inaugurou duas repúblicas para jovens acima de 18 anos que não conseguem moradia após deixarem as casas de acolhimento.

A portinha cinza incrustrada no muro azul da casa de esquina parece não ser suficiente para dar vazão aos sonhos que abriga. Dentro, adolescentes de 12 a 17 anos esperam afeto e amor.
A Casa do Anjos, no bairro Santa Mônica, Região Norte de Belo Horizonte, é uma instituição de acolhimento de jovens de 12 a 17 anos que são retirados das famílias por vários motivos e ficam sob guarda do estado. A maior parte deles não tem o registro do pai e a mãe é usuária de drogas e álcool.

Os jovens de 17 anos enfrentam uma dura realidade, além da falta do convívio familiar. Ao atingirem a maioridade, eles precisam deixar a casa de acolhimento e seguir a vida.
Os jovens que deixam as casas de acolhimento, muitas vezes, não conseguem voltar para o convívio familiar e nem se manterem sozinhos, mesmo empregados. Pensando nestes jovens, a Prefeitura de Belo Horizonte abriu, em dezembro de 2018, duas repúblicas, uma feminina e outra masculina, para abrigar esta população.

Enquanto a maioria dos adolescentes busca independência financeira e a saída da casa dos pais, esses jovens querem encontrar uma família, querem carinho, proteção, abraço.
Um dos jovens, que na reportagem vai ser chamado de Leonardo, descreveu uma parte do seu sonho após completar 18 anos.

“Eu sonho em ter meu próprio lugarzinho pra morar, sabe? Ser independente. Ter minha casa, minha família. Realizar meu sonho de ser ator”, disse.

Mas, ao mesmo tempo em que sonha em construir uma família, Leonardo ainda mantém a esperança de ser adotado.

“Assim, família pra mim não importa questão financeira, sabe? A pessoa que eu sei que eu vou dar certo, que eu vou ter certa afinidade, vai ser assim experiência para levar para toda vida, pra mim já ‘tá’ de bom tamanho”, confessou, com simplicidade.

Kátia Rochael, diretora de Proteção Social Especial da Subsecretaria Municipal de Assistência Social, Segurança Alimentar e Cidadania de Belo Horizonte, explica o trabalho das casas de acolhimento, que antigamente eram chamadas de abrigos.

“Significa ofertar um processo de socialização digno e garantir os direitos de cidadania. Pra isso, é importante que sejam residências comuns, na comunidade, que não tenham uma identificação para não favorecer estigmatização. É importante que o acolhimento seja em pequenos grupos e personalizados, a lei prescreve no máximo 15 acolhidos. Importante também que esta unidade favoreça a convivência entre os acolhidos e destes acolhidos com a comunidade”, disse a diretora.

Entrando na Casa dos Anjos, percebe-se um clima de casa de família. A organização é vista em todos os cômodos. E apesar de abrigar 12 adolescentes, é um lar silencioso, calmo.

O porão abriga uma grande sala de recreação, onde os jovens jogam videogame, usam computador, tablete e celular. E também conversam entre eles e com a coordenadora da casa, Cláudia Rezende.

“A Casa dos Anjos adota a rotina de um lar, de uma casa. ‘Onde vai, com quem vai, que horas volta’? Então, se quiser ir em uma festa, nós vamos verificar se o local é saudável”, descreve Cláudia.

Todos os acolhidos da Casa dos Anjos estudam e não há evasão escolar. E aqueles que já têm 16 anos também trabalham. Além disso, eles ainda têm obrigação de arrumar as camas todas as manhãs, manter suas coisas organizadas e ajudar nas tarefas da casa.
O adolescente que vamos chamar de Vitor nesta reportagem conta sua rotina. “Eu trabalho de manhã e estudo à noite. Serve pra gente aprender a dar valor às coisas. (…) Cama é obrigação de qualquer adolescente e a tarefa em casa também é como obrigação, da gente ajudar. É importante ajudar os educadores, as cozinheiras e as pessoas que limpam a casa”, disse.

Família e adoção

O trabalho principal das casas de acolhimento é fazer com que este jovem volte para sua família biológica. Para isso, as assistentes sociais orientam e ajudam a família. Acompanham tratamento para vício de droga, auxiliam a busca de qualificação e emprego e oferecem atendimento psicológico.

“Estar acolhido não significa romper o vínculo com a família. É importante que a unidade de acolhimento favoreça a convivência com a família e trabalhe junto com a rede de políticas públicas para que esta criança, este adolescente, volte pra casa”, comenta Kátia Rochael.

Esta família não tem que ser, necessariamente, somente mãe e pai. Também é trabalhada a família estendida, que são avós, tios e até pessoas com algum vínculo afetivo com o adolescente e que queria a guarda deste jovem. Ainda segundo Kátia, a adoção é a última medida para estes adolescentes.
Apesar do trabalho com a família, atualmente, na Casa dos Anjos, nenhum dos adolescentes recebe visita de nenhum parente. E eles preferem a adoção por família substituta, ou seja, famílias que se dispõem a adotar uma criança ou um jovem que nunca viram.

O perfil mais buscado de crianças por estas famílias é recém-nascido ou criança na primeira infância, de raça branca e, de preferência, do sexo feminino. Esta estigmatização deixa cada vez mais distante o sonho destes jovens de 17 anos, grande parte deles negros, de serem adotados.

Cláudia Rezende faz um apelo para estas famílias que estão dispostas a adotar uma criança.

“Conhecer primeiro, sem o pré-julgamento. Porque muitas das vezes a gente julga pelo senso comum. E quando se conhece, é outra realidade. Então, a gente pensa assim: ‘os meninos vão dar trabalho’. Mas os nossos filhos dão trabalho. Por que os meninos que estão para adoção têm que ser perfeitos?”, disse.

Eles não são perfeitos. Mas são jovens amorosos, carinhosos, responsáveis e que buscam amor. Parece pouco, mas para estes adolescentes é muito mais do que eles podem até sonhar.

“Eu busco uma adoção, uma família, sabe? Para estar comigo. Eu busco é amor, né? Amor de uma mãe, de um pai, ajudar com a gente nos estudos, no dia-a-dia. Ter amor”, encerra, emocionado, Vitor.

via – G1

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